Inana - a busca de si mesmo

03/05/2015

Deméter, a grande deusa-mãe dos povos agrícolas europeus do período neolítico, corporifica a percepção de um mundo em que todas as coisas coexistem em um sistema coerente de abundância harmônica, numa rede sem fim de ciclos de nascimento e morte. A continuidade da vida era assegurada pelo cultivo coletivo da terra e o cíclico morrer e renascer do grão.

Como deusa dos frutos da terra, especialmente das terras cultivadas, o símbolo maior de Deméter é a espiga de trigo. Seus ritos festejam a fertilidade da terra que produz o alimento para nutrir todos os seus rebentos, sendo especialmente relacionados com os mistérios femininos.

Inseparável de Deméter é sua filha Core, o broto em que renasce a planta-mãe, assegurando a continuidade da vida. Mas, com a vinda das tribos pastoris e sua concepção patriarcal, esta continuidade entre a deusa-mãe e sua filha-broto é rompida, conforme nos relata o mito.

Core, a jovem filha de Deméter, costumava brincar livre, leve e solta pelas campinas, em companhia de suas companheiras, colhendo rosas, açafrão, belas violetas, íris e jacintos, quando um dia se deparou com um narciso especialmente atraente, de cuja raiz brotavam centenas de florações, exalando um aroma tão doce, que todos no céu, na terra e no mar sorriam maravilhados.

Nos relata o hino homérico a Deméter, que o narciso havia sido criado por Gaia especialmente para atrair a jovem florescente, de quem se havia apaixonado Hades, o Senhor do Mundo Profundo, tendo recebido autorização de Zeus para raptá-la, sabendo ambos que Deméter jamais concordaria com isto.

Atraída para a bela flor, Core se aproximou para colhê-la, quando então a terra se abriu e ela se viu levada para o mundo profundo, não sem gritar por ajuda da mãe. Esta, tendo ouvido o chamado da filha, percorre o mundo à sua procura, sem sucesso. Enlutada, finalmente refugia-se em Eleusis, deixando a terra fria e devastada. As sementes não germinavam, as flores não se abriam, as espigas de cereal não amadureciam, nem as árvores davam frutos.

Todos os apelos para demover a deusa foram infrutíferos; apenas quando tivesse sua filha de volta, a terra voltaria a vicejar. Não tendo outra alternativa, Zeus enviou Hermes ao Mundo Profundo, com a ordem para que trouxesse de volta a jovem, cuja tristeza se dissipou imediatamente ou ouvir a notícia. Tão feliz ficou, que até se dispôs a comer as sementes de romã que Hades lhe ofereceu sorrateiramente.

Quando mãe e filha se avistaram, a alegria retornou para o mundo. Mas como todos os eventos que mereceram ser mitificados, esta experiência causa uma profunda transformação na jovem donzela, que não retorna simplesmente como Core, mas passa a ser cultuada como Perséfone, a Rainha do Mundo Profundo. E como tal, de tempos em tempos precisa voltar ao seu reino.

A história do rapto de Core nos revela um mundo em que o feminino em sua juventude já está submetido ao poder e à autoridade masculina, restando-lhe apenas esperar pela ajuda do feminino maduro que, por sua vez, precisa recorrer à resistência teimosa para atingir os seus objetivos e, mesmo assim, atinge-os apenas parcialmente.

Se nos deslocarmos no espaço e recuarmos no tempo, vamos encontrar um mito em que a jovem donzela ainda é capaz de decidir seu próprio destino. No terceiro milênio antes do tempo comum, na região conhecida como Mesopotâmia, vamos encontrar o mito sumério de Inana, a jovem deusa que, por iniciativa própria, desce ao mundo profundo para encontrar sua irmã escura, uma parte perdida de si mesma.

Entre os poemas ou hinos dedicados a Inana, encontramos aqueles que cantam o cortejar do jovem pastor Dumuzi pelas graças da jovem deusa, assim como os hinos que a festejam como o armazém, onde são guardados os frutos da colheita e onde é realizado o casamento sagrado.

Mas o mais belo dos hinos e que encantou a contadora de histórias Diane Wolkstein, é o poema intitulado "A descida de Inana ao Submundo", “a história da mulher que se despiu, em sete portais sucessivos, de tudo que ela havia realizado na vida, até estar nua, com nada restando a não ser sua vontade de renascer”, diz ela em Inanna, Queen of Heaven and Earth [Inanna, Rainha do Céu e da Terra].

Feliz por ter encontrado a deusa ainda cantada em seu ciclo completo de jovem, madura e anciã, Wolkstein leu e releu o hino, até encontrar seu ritmo e ser capaz de recitá-lo perante uma audiência. “Do Grande Acima ela dirigiu seus ouvidos para o Grande Abaixo”, inicia o hino. E dá continuidade, relacionando os sete templos das sete cidades do país, que Inana abandonou, para descer ao mundo profundo.

Solicitando entrada no kur, o ‘mundo do não retorno’, o guardião pergunta pelo motivo e ela responde que vem por causa de sua irmã mais velha, Ereshkigal, que se contorcia em dores. Foi-lhe exigido, a cada portal, que se desfizesse de uma de suas muitas insígnias, de modo que adentrou nua o grande salão real, dirigindo-se diretamente ao trono. “Então Ereshkigal fitou Inana com os olhos da morte. Ela pronunciou contra ela a palavra da ira. Ela bradou contra ela o grito da culpa". E assim, Inana se tornou um pedaço de carne apodrecendo, pendurada num gancho.

Ao desfazer-se de suas insígnias como Rainha do Céu, Inana vai de encontro aos seus aspectos mais escuros, mais reprimidos. Inana e Ereshkigal são aspectos polarizados de uma mesma totalidade: os aspectos claro e escuro da Grande Deusa. A lua cheia e a lua negra, acertadamente chamada de lua nova, porque é nas profundezas da não existência, do caos, das trevas, que a vida se renova, renasce.

Ao ultrapassar o limiar do kur, o reino da morte sumeriano, passam a prevalecer as leis de Ereshkigal. Nada do que aprendemos na vida nos serve diante da morte, nada nos resta a não ser nos render, nos submeter. Este olhar da morte, impiedoso e frio, não é fácil de sustentar. Como escreve Sylvia Perera em Um Caminho para a Iniciação Feminina, “ele não se deixa enganar por um desempenho responsável e nem por conquistas ao nível da vontade”.

O que traz Inana de volta é a intervenção de Enki, deus da sabedoria, da água e da criatividade. Tomando um pouco da sujeira que estava debaixo de suas unhas pintadas de vermelho, “uma coisinha insignificante e rejeitada, até mesmo invisível anteriormente, e que sobrara do processo criativo maior”, escreve Perera, ele modela duas criaturas que são enviadas ao submundo com a água e o alimento da vida, para se juntarem ao lamento de Ereshkigal.

Aproximando-se da deusa e “ignorando os processos de distância e das leis do mundo superior”, estas criaturas instruídas pelo deus da sabedoria levam o aspecto escuro do feminino a tomar consciência da validade de sua experiência de dor. Ao honrarem o sofrimento e validarem essa experiência, possibilitam a transformação da destruição em generosidade. Como recompensa, ela lhes oferece o rio em toda sua plenitude, os campos plenos de colheita. Mas eles queriam apenas o corpo inerte de Inana que, sendo-lhes concedido, eles reavivam.

O que chama atenção neste hino é que ele nos indica um caminho para reverter a deusa irada em deusa compassiva, ao contrário da maioria dos mitos, que enfatizam a transformação da deusa benéfica em seu aspecto ameaçador. Mas a reversão só é possível honrando, reconhecendo e validando a experiência da dor e suas causas.

E a origem da dor e da ira de Ereshkigal pode ser vislumbrada entre vários fragmentos de outros hinos. Quer eles nos contem que o mundo profundo lhe foi dado como prêmio, ou que ela foi tomada como prêmio pelo mundo profundo, o que revelam é que ela não está lá desde o início. Ela representa o aspecto do feminino que foi relegado ao mundo profundo pelo masculino, aspecto este que falta a Inana, para ser representante da Grande Deusa da Vida e da Morte.

Como se deu a fragmentação da grande deusa? Entre os trechos decifrados, destaca-se o relato do nascimento do deus lua, pai de Inana. O mito relata que a mãe de Ninlil, a jovem deusa do grão, orienta sua filha para banhar-se nas águas claras do rio, o que ela faz com prazer. Enlil, o vento fértil da primavera, vê a jovem e a deseja. Mas como ela não cede aos seus desejos, ele a toma pela força, razão pela qual é banido pelas divindades para o mundo profundo. Grávida, Ninlil, a versão jovem de Ereshkigal, o segue, do mesmo modo que a semente fecundada se aprofunda na terra. As dores de Ereshkigal são as dores de parto da semente brotando.

Assim como Core, a jovem filha de Deméter, a deusa grega do grão, se transforma em Perséfone, a Rainha do Mundo Profundo, também a jovem Ninlil se transforma em Ereshkigal, a Rainha do Grande Abaixo. Mas Perséfone não passa pelas dores do parto, ela não dá o próximo passo em direção à maturidade, ela apenas lamenta a separação da mãe. Ninlil, contudo, opta por seguir seu parceiro e como Ereshkigal, é continuamente produtiva.

Na mitologia sumeriana, a figura da grande deusa já apresenta sua primeira divisão entre acima e abaixo, tornando necessária a descida para o mundo profundo, a fim de recompor a continuidade da vida. A colheita resultante do parir de Ereshkigal é armazenada no silo, este silo que é a própria Inana, sua neta. E ela desce ao mundo de Ereshkigal para buscar sua herança, sua linhagem, sua origem.

Nada nos assegura que Inana tenha realizado sua trajetória até o fim, mas ela pelo menos nos mostra um caminho possível. E cada uma de nós precisa percorrer este caminho para as profundezas de si mesma, tantas vezes quantas forem necessário, para encontrar nossas partes exiladas, recuperá-las e integrá-las na totalidade do que somos.

Só assim a totalidade da vida e da morte pode ser restaurada em sua integridade. Apenas quando reconhecemos e acolhemos todos os nossos aspectos, podemos recompor nossa integridade e nos tornarmos quem somos verdadeiramente, desde o princípio.

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