Sophia e Lilith: Ir ao encontro do desconhecido

22/04/2013

Grande mãe negra que está em todas nós...
Obrigada pela sua feiúra, seu lado obscuro, seu medo sombrio
Grande mãe que a todas conduz
a olharmos para dentro e trazer a chama da vida
a mais completa verdade sobre tudo.
(Regina Rodrigues)

Todas e todos temos algum ponto obscuro em nossa vida, algum aspecto que provoca dor, insatisfação, infelicidade. Muitas vezes nem temos consciência do que seja, mas este aspecto, este foco de escuridão ou vazio, nos faz ir em busca de algo, mesmo que não saibamos o que procurar. Qual é o ponto negro em sua vida interior?

Ansiar por algo e não saber o que seja pode gerar muita angústia, uma vez que não sabemos em que direção ir e o que fazer para alcançá-lo. E não temos como saber, porque isto que nos atrai é desconhecido. Ou talvez seja mais correto dizer que é algo ainda não criado, algo que aguarda nossa ação para ser criado. Criar isto é nossa tarefa como seres criativos que somos. E como acontece com todo ato criativo, não sabemos o resultado da nossa criação, antes de realizá-la.

Portanto, precisamos ir adiante, sem saber aonde vamos chegar. Precisamos confiar que chegaremos a algum lugar. Permanecer no espaço do não saber, atentos e abertos para o que se apresenta, é um grande desafio, pois saber é o maior instrumento de controle que desenvolvemos. Portanto, precisamos abrir mão do controle, o que naturalmente nos amedronta.

Em Love and the Soul [Amor e a Alma], Sardello nos fala de um fluxo de tempo que vem a nós do futuro e que se sobrepõe, no presente, a um fluxo de tempo do passado. Isto nos confunde e nos leva a atribuir isto que nos atrai para o futuro a algo que aconteceu no passado. Seja pequeno ou grande, este ponto obscuro na nossa vida, que não quer calar, pode ter sido ativado por um evento que podemos localizar com bastante clareza em algum lugar no passado, mas que mesmo assim é algo do futuro, que nos atrai para realizarmos nosso propósito, aquilo que verdadeiramente nascemos para realizar.

Em minha própria vida, o fator que me atraiu para o futuro foi a morte de minha mãe quando eu era muito pequena. Um evento pesaroso em si, ele continha a força que me atraiu para realizar o trabalho em busca de minha própria alma que, como todas as almas, está sempre voltada para o futuro, em busca de expressão criativa.

A interação da alma com o fluxo de tempo do futuro se dá, quando a alma individual entra em contato com a alma do mundo. Esta conexão acontece por intermédio do Eu, esta instância da nossa individualidade que é diferente do ego. Enquanto o ego resulta de nossas experiências passadas e tem a função de nos distanciar do mundo, o Eu não é algo que adquirimos, é quem somos e que se expressa espontaneamente, à medida que desenvolvemos nossa individualidade. Mais envolvido com o futuro, com aquilo que podemos nos tornar, o Eu é criativo e livre. E o que é mais importante, nos orienta em direção ao mundo, ligando nossa alma individual com a alma do mundo.

Considerando que o ego interage com o mundo a partir de crenças e conceitos, quanto mais ele predomina em nossa vida, mais nos distanciamos do mundo da experiência direta, para nos adaptar aos padrões culturais que nos são apresentados como valiosos. E mais nos separamos da nossa alma individual, tendo em vista que ela interage a partir do coração, da percepção direta do que vivenciamos a cada momento, ressoando com aquilo que toca nosso verdadeiro ser. E quanto menos contato temos com nossa alma individual, menos estamos conectadas com a alma do mundo.

Diz Sardello que nossa alma entra em conexão com a alma do mundo pelo tato, nosso corpo etérico funcionando como uma membrana que nos separa e conecta ao mesmo tempo. Ou seja, nossa alma está imersa na alma do mundo, separada dela e conectada com ela por uma membrana sutil, do mesmo modo que a criança está imersa no corpo da mãe, separada e conectada pela placenta.

A alma do mundo, este “fator desconhecido que faz da multiplicidade do mundo ao mesmo tempo uma unidade e nos dá a sensação de que podemos dizer que vivemos no mundo, não simplesmente no meio de uma multidão de coisas separadas”, sempre é concebida como feminina. Na tradição ocidental, é personificada como Sophia, a Sabedoria Divina. Na tradição alquímica vamos encontrá-la como a anima mundi, uma mulher nua, com seu usual halo de estrelas, um pé na terra e o outro na água, expressando seu domínio sobre terra e mar. Seu seio esquerdo é a lua, que também figura em seu púbis. Seu seio direito é uma estrela ou o sol irradiando bênçãos ao mundo.

A palavra anima (alma) é formada pelas raízes an=celeste e ma=mãe, correspondendo à palavra grega psyche e ao sânscrito shakti. Todas as almas são emanações da Mãe Celeste, a Alma do Mundo. Com sua presença viva, ela permeia o mundo fenomenal e traz à manifestação a maravilhosa ordem do universo.

Nascida do poder feminino primordial Silêncio, Sophia foi atraída pela luz da Profundidade, que ela viu refletir-se no Caos. Motivada pelo amor, ela desceu para a região do caos, onde experimentou muito sofrimento psíquico. Do fluxo de sofrimento que passava através dela formaram-se terra, água, fogo e ar, elementos que se condensaram para formar a Terra. Antes de retornar às regiões celestes, compassivamente dividiu-se em duas, uma delas retornando luminosa para Silêncio e Profundidade, enquanto a outra permaneceu na terra, velada e escura, esperando as almas humanas se desenvolverem em direção à unidade.

Como alma do mundo, Sophia está velada em tudo que nos cerca. Em seu aspecto escuro, ela vivifica a matéria. Mas quando rejeitamos o mundo, a matéria, estamos nos distanciando dela e, simultaneamente, nos distanciando de nossa própria alma individual.
Quando nos distanciamos da nossa conexão com a sabedoria divina, perdemos nossa vitalidade e criatividade. Ficamos des-animadas, isto é, sem alma.

Mas Sophia não deixa de nos chamar, pois ela é este ponto obscuro, velado, que, como uma mãe amorosa e compassiva, não desiste de suas filhas e filhos. Com seu amor, ela nos atrai. Sendo ela a própria fonte desta força que chamamos de amor, é apenas quando nossa alma individual trabalha em colaboração com a alma do mundo, que somos capazes de criar amor verdadeiro.

Para fortalecermos nossa conexão com a alma individual, é necessário mergulharmos nas nossas profundezas, na escuridão em nós mesmas. Quando nos aventuramos pelo ponto escuro que nos atrai para o futuro, encontramos a nós mesmas em contato com a alma do mundo. Não importa o que tenha acontecido no passado, nossa vida será o que criarmos no futuro. Para isto, precisamos começar de onde estamos e com os recursos que temos. Precisamos honrar tudo que conseguimos até aqui e valorizar todos os elementos que compõem nosso mundo, principalmente aqueles que mais temos rejeitado. Precisamos valorizar e regenerar a matéria, começando com nosso próprio corpo.

E quando mergulhamos nas profundezas do nosso viver corporal, vamos encontrar Lilith, esta figura escura que nos introduz ao aspecto de nós mesmas que desconhecemos. Em seu artigo na Revista Junguiana nº15, intitulado "O renascer de Lilith", Suely Engelhard a define como a forma feminina da sombra transpessoal, cuja característica é a criatividade aquém ou além da racionalidade científica. Quando nos aventuramos até esta sombra profunda de nós mesmas, podemos recuperar e integrar partes nossas que foram excluídas, negadas, reprimidas. Podemos estabelecer um novo equilíbrio interno, que então refletirá um modo mais integrado de estar no mundo, em que nossa alma individual está em conexão com a alma do mundo.

Mesmo que se manifeste como um poder pessoal, Lilith de fato representa um poder coletivo. Ela configura a força escura que nos integra a todos em um mundo que não pode ser conquistado, apenas compreendido. E não é por acaso que encontramos pouca referência a ela na história documentada, pois ela representa nossa parte intimamente conectada com a natureza, aquela que predominava quando ainda não havíamos nos separado totalmente de nossa origem e nos colocado arrogantemente acima dela. Quando ainda nos deleitávamos no abraço amoroso da Grande Mãe.

As populações nômades do Oriente Médio usam a designação lilith para nomear o espírito do vento e, neste sentido, a identificam com “o desapiedado Vento do Sudoeste que sopra, quente e perturbador, dos profundos desertos da Arábia e sobe em direção ao Norte e ao Oriente, nas regiões da bacia do Eufrates e do Tigre, com uma ação ruinosa especialmente no clima da Caldéia, onde era com certeza capaz de enfraquecer a vida humana”, escreve Roberto Sicuteri em Lilith. A Lua Negra.

É este mesmo vento sul que, no épico sumério Gilgamesh e a Árvore Halub, derrubou um choupo que crescia às margens do rio Eufrates. Encontrado pela deusa Inana, esta o plantou em seu jardim e cuidou dele, esperando ele crescer, para que pudesse fazer de sua madeira um trono e uma cama. A árvore cresceu e engrossou, e em sua base uma serpente imune a encantamentos fez seu ninho, a fêmea da feroz ave Anzu instalou seus filhotes na coroa, enquanto no meio a escura donzela Lilith construiu sua casa. Gilgamesh, o heróico rei pastor de Uruk, matou a serpente e espantou a ave para a montanha, fazendo com que Lilith destruísse sua casa e fugisse para o deserto.

Mas a forma mais conhecida de Lilith é como a serpente do paraíso, guardiã da árvore da vida, esta árvore que se ergue entre muitas no jardim primordial e que estabelece uma conexão entre os mundos, aprofundando suas raízes nas entranhas da terra e elevando sua copa às alturas celestes. O tronco representa o espaço do mundo criado, a conexão entre céu e terra.

Comer de seus frutos foi a primeira proibição do deus masculino aos seres humanos, numa tentativa de romper esta conexão. Mas Eva, a mãe de todos os viventes, dando ouvidos à sabedoria ancestral da serpente, trouxe a consciência discriminativa para a humanidade, com todas as suas consequências. E a Árvore da Vida se transformou na Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. O estado paradisíaco se transformou na percepção da dualidade, que demanda de cada pessoa um posicionamento diante do bem e do mal, da vida e da morte. Como transmissora da consciência discriminativa, a serpente constitui igualmente nosso caminho de volta para a centelha divina interior.

Mas para seguir este caminho, precisamos acolher em nós aqueles aspectos que foram rotulados de ‘mal’ e que suprimimos e ocultamos na mais profunda escuridão interior. Quando empreendemos nossa jornada em busca dos aspectos obscuros e esquecidos de nossa alma, precisamos enfrentar todos os nossos demônios e é de grande ajuda saber que eles apenas se tornaram isto, porque foram excluídos da nossa vida, assim como Lilith foi excluída e se retirou para o deserto, onde incessantemente gesta e pare uma legião de demônios, os filhos de sua criatividade original rejeitada.

Mas são exatamente estes aspectos perdidos de nossa alma que nos atraem, que nos chamam para esta jornada em busca de nós mesmos. Quando somos capazes de acolher em nós todos os nossos aspectos, todo nosso poder, todo nosso brilho, manifestamos plenamente nosso ser e nos tornamos aquilo que somos desde a origem: emanações individualizadas da sabedoria divina.

Quando vamos ao encontro do desconhecido, encontramos a nós mesmas e a totalidade do cosmos. Reinserimos nossa alma individual na alma do mundo. Unificamos em nós a criatividade humana e a sabedoria divina. Lilith e Sophia, enfim juntas!

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