A vivência no corpo

23/08/2016

(Texto publicado no site ABSOLUTA em 2007)

“Caminhar em equilíbrio, em harmonia e de um modo sagrado requer permanecer no corpo, aceitando seus desconfortos, suas deteriorações, seus desalinhamentos e florescimentos, respeitando-os.”
Paula Gunn Allen (poeta, novelista e crítica literária, nativa-americana do povo Laguna Pueblo-Sioux)

Convidada pelo ABSOLUTA a participar da roda de conversa sobre os caminhos do feminino nos tempos atuais, pensei em partilhar um pouco da minha percepção do mundo, na presente etapa da longa jornada de resgate dos valores associados ao princípio feminino. Uma jornada rica em descobertas, experiências, trabalhos e encontros, tudo partilhado com muita alegria e satisfação com mulheres e homens que conheci pessoalmente e outras tantas pessoas, cujo contato ocorreu por meios indiretos.
Ao longo destas duas décadas de descobertas e realizações, houve muitos altos e baixos, a paisagem variando entre prados, florestas, lagos e riachos que se percorre fácil e prazerosamente, com trechos montanhosos e pedregosos, que requerem mais empenho. Períodos de espaços amplos e arejados alternando-se com restrições e abafamentos de cavernas escuras. No momento presente, a paisagem que vislumbro me parece no mínimo árida, para não dizer desértica. Felizmente os oásis não deixam de se apresentar, como esta roda de conversa, um intervalo para repouso, recuperação de forças e troca de informações.
Quais seriam os valores necessários para atravessar este tempo desértico? Como forças que vibram em uma freqüência muito sutil, cada qual se desdobrando em várias crenças que, por sua vez, se manifestam em múltiplas atitudes, os valores que cultivamos determinam, em última instância, nosso comportamento e a direção de nossa vida.
Para as mulheres em especial, vivendo em um mundo definido pelo masculino, o simples fato de nascer em um corpo de mulher traz um sentimento de menos-valia. Por mais que tenhamos trabalhado com nossa estima, nossa confiança, nossa valorização, no fundo do nosso ser existe um resquício de depreciação, de desqualificação ou sentimento de inferioridade, que apenas pode ser curado por meio da recuperação de valores humanos que, em essência, não pertencem a nenhum gênero, mas fazem parte da herança coletiva da humanidade.
Pessoalmente, sinto urgência em resgatar o verdadeiro significado da tolerância. Temos presenciado um exercício de tolerância que tudo permite, tudo concede, tudo justifica em nome do direito à liberdade individual, transformando a tolerância em vício, não em virtude, resultando em licenciosidade e não liberdade.
Isto afeta principalmente as mulheres, de quem tradicionalmente se espera tolerância. Em seu papel de mães, espera-se das mulheres tolerância com as falhas, exigências e transgressões das crianças; como esposas espera-se tolerância com os desvios e insuficiências dos maridos; como colegas de trabalho espera-se tolerância para com os desmandos dos chefes e colaboradores. Delas não se tolera qualquer desvio, sem que imediatamente sejam desqualificadas. São mães desalmadas, esposas chatas, colegas depreciadas, vulgarmente ‘mulheres mal-amadas’ (o que paradoxalmente toca a verdade mais profunda!).
Eu vejo esta expectativa de tolerância mais como uma tentativa de submetimento. A tolerância é uma ação ativa, que requer o consentimento e a escolha da pessoa que tolera. Quando a tolerância se fundamenta em uma escolha baseada no amor e no discernimento, ela faz jus a todos os envolvidos e requer que todos reconheçam e se responsabilizem por seus atos. Em geral, contudo, as pessoas toleram atitudes diante das quais se sentem impotentes; toleram por medo, por falta de escolha, por sentimento de desvalia. Quando isto acontece, os demais envolvidos não precisam assumir responsabilidade pelos seus atos, o que equivale a uma autorização implícita para repeti-los, já que não trazem conseqüências significativas.
Quando toleramos de forma submissa, deixamos de exercer nosso poder, reduzimos nosso potencial para a ação, além de acumular rancor, ressentimento e todo tipo de sentimentos negativos. Baixa auto-estima é sinônimo de baixa imunidade e isto repercute e se expressa diretamente em nossa vivência no corpo, que se torna o depósito de nossas insuficiências psicológicas. Para não termos que lidar com estas insuficiências, evitamos um contato profundo e saudável com nossas emoções e sensações. Sem uma conexão sensível com nosso corpo, ficamos insatisfeitas com a imagem corporal e criamos mais tensões que realimentam o ciclo de impotência.
Para recuperar nossa plena habilidade senso-perceptiva, precisamos resgatar nossa relação com o corpo sensível. Isto requer dissolver as camadas protetoras de valores e crenças que distorcem nossa visão da realidade, depositadas sobre nossos órgãos da percepção pela dificuldade de lidar com situações ameaçadoras. Em seu lugar, precisamos colocar valores positivos de respeito, responsabilidade e solidariedade, cada uma começando consigo própria, que nos possibilitem tolerar as dificuldades inerentes na construção de um mundo mais harmônico e amoroso. Precisamos aprender a tolerar as situações desconfortáveis e ameaçadoras pelo tempo suficiente para transformá-las.
Como na história das ‘roupas do rei’, precisamos recuperar a capacidade de perceber que o ‘rei está nu’. Este rei que, de fato, é a nossa própria instância mental desenraizada, dissociada da substância vital terrena que é o corpo físico. Com o resgate da nossa sensibilidade perceptiva, será possível trazer à tona ‘a rainha vestida de céu e de estrelas’ que foi relegada aos mundos profundos pelo processo histórico racional. Ao valorizar e honrar nossa percepção acima das máscaras que construímos ao longo dos últimos milênios de história, poderemos recuperar não apenas nossa relação conosco e com nossos semelhantes, mas com todos os demais seres e dimensões do universo.
Na comunidade-corpo da Grande Deusa-Mãe em nós, podemos encontrar nossa condição original de plenitude!

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