A Deusa e o Cisne

11/01/2012

O poder da mulher penetrando o Espaço Sagrado
Tocando o futuro ainda por acontecer
Trazendo a graça eterna.

Jamie Sams

Nestes tempos em que tantas pessoas buscam um sentido maior para a vida, que melhor imagem do que o cisne para representar este anseio da alma em se alçar e espraiar pelos espaços celestes. Ave migratória das mais longevas, o cisne é uma imagem de rara graça e beleza, razão pela qual encarna o espírito da criação, simbolizando perfeita união e equilíbrio. A medicina do cisne nos propõe seguir fielmente os ditames do coração.

Um vasto conjunto de mitos, tradições e poemas, oriundos dos povos de todos os tempos e lugares, celebra esta ave imaculada, dotada de uma plumagem alvíssima, asas que produzem um som que remete ao roçar da seda e um longo pescoço que porta com graça e poder. Uma imagem viva da luz e da pureza do amor, o cisne é um símbolo muito antigo e de grande complexidade, associado com a integração cósmica.

A parceria entre o Cisne e a Deusa vem de longa data, como atestam as pinturas rupestres do paleolítico, bem como as arcaicas estatuetas encontradas no lago Baikal na Sibéria, esculpidas em marfim de mamute, com longos pescoços, cabeças de pássaro e corpos femininos. Escreve Buffie Johnson em Ladie of the Biests [Senhora dos Animais] que “as peculiaridades das figuras não são devidas a inaptidão, mas a uma profunda crença na criação do mundo a partir de um Ovo Divino carregado no quadril da Deusa Pássaro”.

Relata uma lenda dos Buriata, tribos que habitam a região ártica da Eurásia, que certo dia um caçador surpreendeu três jovens esplendorosas se banhando em um lago solitário. Reconhecendo que se tratava de cisnes que haviam se despojado de seu manto de plumas, o homem se apoderou de um deles e o escondeu, impedindo que uma das donzelas recuperasse suas asas e pudesse sair voando. Tomando-a como esposa, ela lhe deu onze filhos e seis filhas, antes de recuperar sua roupagem e voar embora.

Antes de ir, disse ao homem: “Vós sois seres terrestres e deveis ficar na terra. Mas eu não sou daqui, eu venho do céu e para lá devo retornar. Todo ano, na primavera, quando passarmos voando para o norte, e todo outono, quando passarmos de retorno para o sul, deveis celebrar a nossa passagem com cerimônias especiais”.

É possível que esta lenda esteja na origem de muitas histórias dos povos celtas, que vinculam o cisne à música e à pureza, razão pela qual os bardos adornavam suas capas com penas de cisne. Seu desaparecimento durante a parte escura do ano levou à crença de que eram seres do outro mundo que, ao penetrarem o mundo terrestre, assumiam a forma de cisne.

Os povos que viviam nas ilhas ocidentais da Escócia presenciavam anualmente a passagem de ruidosos grupos de cisnes e gansos em sua migração em direção ao norte, para seus campos de procriação na Islândia e na região ártica. Acreditavam eles que, se uma pessoa ainda estivesse viva quando eles retornavam no outono, então ela estaria livre da morte por mais um ano.

Durante o primeiro milênio antes da era comum, os primeiros povos que chegaram às ilhas britânicas tinham como deusa titular Brigid, conhecida pelos escoceses como Bride, além de várias outras versões do mesmo nome. Com a chegada dos romanos e o cristianismo, ela se tornou Santa Brígida. Como todas as deusas arcaicas, ela era capaz de assumir uma variedade de formas animais, entre as quais a mais significativa era o cisne branco.

Como patrona do parto, Brigit-Bride-Bridget-Bree era associada com a Via Láctea, espaço celeste por onde vagam os cisnes. Brigit é celebrada até hoje em fevereiro, quando os cisnes iniciam sua jornada rumo ao norte. Mas esta é apenas a metade de seu culto, porque uma segunda cerimônia era celebrada em novembro, quando os cisnes retornavam para o sul. Esta festa está na origem de Samhain, a festa dos mortos, e, de acordo com Andrew Collins (www.andrewcollins.com/page/articles/thecygnusmystery_swan.htm, ainda é realizada anualmente no Rio Tâmisa.

Em Cornwall, País de Gales, havia um santuário dedicado a Brigid, em que era cultuado o cisne até meados do século 17. Nesta região, o Rio Savern, rio de maior fluxo de água das Ilhas Britânicas, deságua no Canal de Bristol, formando um estuário, também conhecido como o Mar de Severn pelos antigos. O poderoso rio Savern era sagrado a uma deusa das águas e um de seus portos naturais é chamado de Swansea [Mar do Cisne]. O próprio nome Savern é de origem celta (sabinn-â=santa+bree), razão pela qual os romanos o chamaram de Sabrina. Também o nome do canal em que deságua – Bristol – tem origem celta e significa Brig’s town [cidade de Brig].

Mas não é apenas entre os povos no extremo norte que encontramos a associação entre a Deusa e o cisne. Lendas a respeito de Donzelas-Cisne permeiam todo o universo mítico indo-europeu. Um exemplo disto são as ninfas celestes da mitologia védica, que deslizam por sobre o oceano celeste como brancas nuvens.

A mais proeminente entre elas é a deusa-cisne Saraswati, igualmente deusa das águas e originalmente nome de um rio na Índia, hoje inexistente. Preenchendo continuamente o universo com seu canto etéreo, escreve Miranda Shaw em Buddhist Goddesses in India [Deusas Budistas na Índia], ela “flui em uma nuvem sonora de música, roçar de seda e tinir de ornamentos, ao deslizar graciosa e serenamente em seu cisne celestial, iluminada por lótus celestes”.

Cultuada igualmente por hindus e budistas, a figura de Saraswati antecede o Budismo por vários séculos, tendo sido introduzida nos Cantos Védicos do segundo milênio a.e.c. como a rainha das águas, ela que dissolve os obstáculos mentais, refresca o intelecto e faz surgir uma torrente de palavras. Imagem de graça e refinamento, é guardiã da cultura e de todas as artes civilizatórias. Brilhante como a luz de milhões de luas, sua tiara é adornada com uma lua crescente. Para celebrar seu festival anual, os budistas se reúnem no primeiro dia da primavera para fazer oferendas à deusa e realizar um piquenique na encosta verdejante das montanhas.

Sua presença no panteão budista, afirma Shaw, “mostra que o dualismo ocidental que atribui a masculinidade à esfera superior da cultura, enquanto relega a feminilidade ao reino da natureza, não se aplica ao enquadre cultural que fez surgir Saraswati”, a quem um poeta nepalês dedicou o seguinte poema:

“Ela voa em um rápido e mágico cisne que mergulha e brinca no lago profundo dos nossos corações, e traz à vida os jogos do mundo e sua glória: Que eu nunca esqueça, em toda a minha vida, A deusa Saraswati."

Na mitologia grega, encontramos uma versão arcaica de Afrodite, denominada Urânia ou Celeste, que também tem o cisne ou o ganso como montaria e representa a graça e a beleza em todo seu esplendor. E assim como Brigit e Saraswati, também Afrodite é festejada no início da primavera quando, ao emergir das espumas do mar, renova a vida na terra.

Representando a paixão como manifestação do puro desejo que morre em si mesmo, nada melhor do que o cisne e seu canto para lembrar o aspecto mais profundo das grandes deusas da vida e da morte.

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