O impulso para a independência

01/10/2012

Qualquer criança tem um forte impulso para a independência. Podemos vê-lo em ação nas suas contínuas tentativas para entender como funciona o corpo recém adquirido. Em seu empenho para aprender a andar e a falar. Também o vemos na curiosidade com que exploram tudo ao seu redor e no incessante perguntar a respeito das coisas.

Na adolescência, o impulso para a independência desperta em nós o desejo de ser livres para irmos aonde quisermos, tomar nossas próprias decisões, fazer nossas escolhas. A intenção deste impulso é nos tornarmos quem somos de verdade e criar a vida que queremos para nós.

Se dependesse apenas do impulso, todos nós seríamos adultos independentes, responsáveis e felizes. Porque isto não é assim? Olhe para sua vida, você é independente? E se você respondeu afirmativamente, isto significa que você é independente física, financeira, emocional, mental e espiritualmente? Talvez você seja mais independente em uma destas áreas da vida do que em outras? Então vamos olhar um pouco mais de perto para elas.

A não ser que você tenha alguma deficiência neuromotora severa, você sabe andar, sabe falar, cuida pessoalmente de suas necessidades e higiene físicas. Pode ser que você não saiba cozinhar, mas é capaz de cuidar de sua alimentação. E você provavelmente sabe se deslocar na cidade e realizar uma série de tarefas que fazem parte de nossa vida física como pessoas crescidas. Você pode ganhar seu próprio sustento e decidir o que fazer com seus recursos financeiros. O quanto você realiza estas atividades com tranquilidade e facilidade, é a medida da sua independência física.

E quanto à sua vida emocional? Você tem clareza dos seus sentimentos, das suas emoções, do que gosta e do que não gosta? Você faz aquilo que gosta mesmo que outros desdenhem, ou você deixa de fazer o que quer para não desagradar ou magoar alguém outro? Você sabe lidar com a frustração que todos sentimos quando outros ou a vida não correspondem às nossas expectativas? Ou você usa de artimanhas para fazer seus desejos serem atendidos a qualquer custo? Talvez você faça tudo isto algumas vezes e não outras, como a maioria das pessoas. Grande parte dos nossos relacionamentos são codependentes em alguma medida, causando as dificuldades que temos na esfera emocional.

E quanto à sua vida mental? Você sabe quem você é e quais são seus valores e objetivos? Você sustenta suas ideias, a sua verdade, a sua opinião, mesmo diante de opiniões ou ideias diferentes? Ou você assume os conceitos e preconceitos de outros, sem questioná-los, apenas para ser aceita e reconhecida? É importante para você que outros concordem com suas opiniões, ou você é capaz de lidar com divergências de perspectivas?

Tornar-se independente é uma das grandes tarefas para nosso momento presente e não é uma das mais fáceis, porque demanda uma grande dose de consciência. Para ser independente, preciso saber quem sou, o que sinto, penso, almejo na vida e, principalmente, preciso estar consciente de que sou eu quem tem que fazer isto acontecer. Enquanto eu precisar que outros validem quem eu sou ou o que faço, dependo da opinião deles. Enquanto eu abrir mão do que quero para agradar a alguém outro, é o outro que determina minha vida.

Para tornar-me independente, preciso reconhecer e afirmar quem sou, ao mesmo tempo em que preciso abrir mão daquilo que não sou. Para fazer isto, a primeira coisa que preciso é tomar consciência e discriminar aquilo que está em harmonia com quem sou e aquilo que não está.

Inicialmente costumamos identificar aquilo que não queremos. Isto pode parecer fácil, mas requer que eu me responsabilize por este não-querer. Se eu não me responsabilizar, vou atribuir a culpa a alguém outro ou a algo além de mim. Assim, estou me submetendo às circunstâncias e não estou fazendo tudo que eu posso para alcançar o que quero.

Mas digamos que eu reconheci algo de que não gosto, então preciso fazer uma escolha: vou fazer isto ou não? E aí chegamos ao segundo obstáculo. O primeiro é reconhecer aquilo de que gosto e aquilo de que não gosto. O segundo é fazer uma escolha, é escolher entre estas duas possibilidades. Parece fácil, quando tenho que escolher entre uma coisa que gosto e outra que não gosto, mas isto também requer que eu assuma a responsabilidade e as consequências da minha escolha, que podem incluir a desaprovação de alguém que aprecio.

Se escolher entre aquilo de que gosto e do que não gosto já apresenta alguma dificuldade, imagine ter que escolher entre duas coisas que eu considero importantes para mim. Qual é o critério que vou utilizar? Abrir mão de uma para ficar com a outra, ou vice-versa? Neste caso, qualquer que seja a escolha, uma parte minha vai ficar insatisfeita. Como lidar com esta insatisfação?

Fazer escolhas requer encarar a realidade como ela é, sem querer justificar, embelezar ou simplesmente deixá-la de lado. Este é o momento em que sou desafiada a sustentar a minha verdade, não importa se os demais não compreendam ou até se oponham. E sustentar a própria verdade significa agir a partir desta verdade, para transformar a minha realidade, sem esperar que os demais ajam de acordo.

Porque é tão difícil sustentar a própria verdade? Porque ninguém mais pode me assegurar de que é a minha verdade; apenas eu posso saber qual é a minha verdade e afirmá-la na vida significa assumir plena responsabilidade por ela, levando em conta que algo pode fazer sentido para mim, mas pode ser que não faça sentido para o outro.

Por todas estas razões e muitas outras, tornar-se independente não é uma tarefa fácil, eu sei. Por isto precisamos ativar nossa fé na vida, no universo, no divino, qualquer que seja o nome que queiramos usar, pois isto nos ajuda a fazer as escolhas necessárias para crescer, mesmo que elas possam parecer ameaçadoras e 'perigosas' no momento em que as fazemos.

Lembrem-se, somente temos uma visão limitada das consequências de nossas escolhas e é importante permitir que o universo nos surpreenda com desfechos inesperados!

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