A arte de render-se e o poder da rendição

21/02/2015

A Fractologia nos ensina que entre as poucas coisas que o ego não é capaz de fazer está a capacidade de se render.

É comum acharmos que rendição significa desistência, fracasso, derrota, pois esta palavra é principalmente empregada na arte da guerra. Na vida cotidiana a substituímos mais frequentemente pela palavra ‘entrega’. Mudamos a palavra, mas o significado que ela expressa permanece o mesmo, porque continuamos a atuar em um padrão codependente.

Quando estou atuando a partir de um padrão codependente e me entrego, a quê ou a quem estou me entregando? Deixo que a vida, as circunstâncias, as dificuldades decidam o meu caminho? Entrego ou abro mão do meu direito, do meu poder, da minha responsabilidade de fazer escolhas e entrego a questão ao ‘deus-dará’ ou à sorte?

Palavras são meios de traduzir em linguagem uma frequência ressonante. Sabemos que utilizamos a palavra certa para expressar o que sentimos, quando a ressonância da palavra vibra em ressonância com aquilo que sentimos. Com isto quero dizer que a palavra não tem um significado em si, mas é um veículo para expressar nosso sentir. E assim como o nosso sentir muda com o tempo e a experiência, também o uso das palavras pode mudar ao longo do tempo e das experiências vividas. Algumas palavras caem no esquecimento, porque elas não expressam mais aquilo que sentimos e novas palavras são criadas para exprimir nossas novas experiências.

Então vamos voltar à palavra ‘rendição’. Em seu livro Um retorno ao amor, onde Marianne Williamson partilha suas reflexões sobre os ensinamentos do Um curso em milagres, ela escreve: “Render-se significa, por definição, desistir da fixação acerca dos resultados.” Reforçando, render-se não significa abrirmos mão dos resultados, mas sim da fixação em relação a eles.

Quantas vezes ficamos tão apegados aos resultados que queremos obter, que temos dificuldade em nos render às evidências e lidar com os resultados que obtemos. Ficamos tão fixados nos resultados pré-definidos por nós, que deixamos de ver e valorizar a riqueza dos resultados que obtemos, porque não correspondem à nossa expectativa. Quando estamos fixados nos resultados, nos tornamos rígidos e limitamos nossa experiência.

Para abrir mão da expectativa fixa, precisamos aprender a lidar com um dos princípios da criação: a dualidade. Mas como já escrevi em outro texto ("Para além da Dualidade"), a dualidade em si não é o problema, mas sim o fato de atribuirmos valor a uma das polaridades em detrimento da outra, quando definimos que um resultado é útil e todos os demais não servem.

Ao nos fixarmos em um resultado, tornamos mais difícil nossa conexão com as demais possibilidades, limitando nossa experiência e nos separando de partes de nós mesmos. Ao deixarmos de reconhecer ou valorizar estes aspectos de nós mesmos, criamos nossa própria sombra. É esta separação que dá força ao ego codependente e nos distancia de quem somos verdadeiramente, seres de potencial ilimitado.

Quando entendemos que todos os resultados são válidos e fazem parte do nosso caminho, infinitas possibilidades se abrem para nós. Pois o aspecto positivo da dualidade é criar um amplo espectro de possíveis resultados para cada situação, permitindo-nos experienciar todos eles e assim nos conduzir em direção à realização de nossas vidas e nosso verdadeiro potencial. Escolher o que fazemos com as infinitas possibilidades é algo que depende apenas de nós.

Um dos modos mais rápidos de nos movermos pela cura é nos rendermos à experiência, afirma Catherine Wilkins. Quer a experiência seja de dor, tédio ou prazer, quando nos abrimos para ela sem resistência e permitimos que ela se mova através de nós, então seremos capazes de aprender as lições que ela tem para nos oferecer e obteremos a cura que buscamos com muito mais rapidez.

Esta é uma das razões pela qual todas as tradições valorizam o desapego. Desapegar-se também não significa que precisamos nos desfazer dos objetos, das pessoas ou dos objetivos que temos ou queremos, mas sim nos libertar da fixação de nossas expectativas a respeito daquilo que podemos obter por meio destes objetos, pessoas ou objetivos. É entender que eles igualmente são meios para realizarmos aquilo que escolhemos fazer e que podemos realizar aquilo que nos propomos por uma diversidade de meios, pois quem realmente faz a vida acontecer é nossa verdadeira identidade como centelhas divinas que têm o poder de criar aquilo que se propõem.

Quando estamos vivendo a partir de quem somos verdadeiramente, não nos separamos do restante da criação, mas trabalhamos em conjunto com tudo que existe, atuando a partir de um padrão interdependente.

Quando atuamos interdependentemente, apenas nos rendemos ao fluxo da vida e da realização plena. Exercer a arte de nos render e experienciar o poder da rendição pode transformar a vida.

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