Crença e Contexto

24/08/2012

O que são crenças?

De acordo com o dicionário Houaiss, crença é uma “atitude de quem se persuadiu de algo pelos caracteres de verdade que ali encontrou; [...] disposição meramente subjetiva a considerar algo certo ou verdadeiro, por força do hábito ou da vivacidade das impressões sensíveis”.

Não vamos tratar aqui de crenças religiosas, mas sim das crenças comuns que definem nossa atitude diante da vida. As ‘verdades’ que ouvimos, aprendemos e gravamos ao longo do processo de socialização; aquelas afirmações que fazem parte de um coletivo, seja ele a família, o grupo social ou cultural. As ‘verdades’ que, por estarem profundamente gravadas no nosso inconsciente, determinam nossas ações e atitudes sem nos darmos conta, porque são hábitos continuamente reforçados.

E como posso saber quais são minhas crenças? Crenças são aquelas “afirmações com o menor número de palavras” que repetimos inúmeras vezes, sempre que nos deparamos com algo que aceitamos como verdade. São as ‘verdades’ que aceitamos sem questionar, porque parecem verdadeiras. E neste sentido, temos crenças que nos levam adiante e nos ajudam a superar dificuldades (consideradas crenças positivas) e temos crenças que nos limitam, nos fazem resignar diante de dificuldades (consideradas crenças negativas).

Mas como seres mutantes e mutáveis que somos, crenças que nos servem em dada situação ou período de vida podem deixar de ser úteis quando nos modificamos. Pelo fato de persistirem no inconsciente, pipocam vez ou outra, determinando nossa atitude habitual diante de fatos que já podem ter se modificado ou que poderíamos modificar no presente momento. Por isto, sejam elas positivas ou negativas, rever nossas crenças e atualizá-las é sempre uma boa pedida.

Mas uma crença não se estabelece por si mesma, isolada de um contexto. De fato, toda crença é verdade em algum contexto. Acontece que a crença permanece, mesmo quando o contexto já se modificou. Quer um exemplo? A crença de que manga com leite faz mal à saúde. Esta crença surgiu por ocasião da colonização, quando leite era uma mercadoria valiosa demais para ser consumida pelos escravos, enquanto mangas havia em abundância. Um pé de manga é capaz de alimentar um batalhão, imagine um mangueiral numa terra em que ‘plantando tudo dá’! Para evitar que os escravos caíssem na tentação de tomar leite, divulgou-se a crença de que leite com manga faz mal. Na situação atual, leite é pelo menos tão barato quanto manga e mesmo assim, esta crença ainda persiste em grande parte da população.

Mudou o contexto, mas não a crença. O que fazia sentido em um contexto (pelo menos da perspectiva dos senhores de engenho) não o faz em outro contexto. Mas crenças persistem para além dos contextos.

Peter Russel afirma em The Brain Book , que “o contexto afeta virtualmente tudo que vemos e fazemos. Qualquer sistema de crenças fará a pessoa ‘fixada’ perceber aqueles eventos e fatos que sustentam sua crença e não perceber aqueles que não o fazem”.

Assim também é com nossas ‘verdades’. E mesmo que elas tenham nos servido em dado contexto (podem ter sido úteis para nos ajustarmos ao contexto familiar ou social!), será que elas continuam sendo úteis para o contexto em que nos encontramos hoje? Rever nossas crenças e atualizá-las para o contexto presente é um passo para além da codependência. Sempre que revemos e atualizamos uma crença para o contexto presente, pavimentamos uma parte do caminho em direção à independência e tornamos mais fácil para outros seguirem o mesmo caminho.

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