O coração no centro do viver

25/02/2016

Como indivíduos, somos uma totalidade composta de outras totalidades menores, os diversos órgãos e instâncias que nos compõem. A totalidade que somos, por sua vez, está inserida em uma totalidade maior como a família, inserida na totalidade da sociedade, inserida na totalidade da cultura, e assim por diante.

No centro de cada uma destas totalidades há um atrator organizando o campo de energia. A rede sutil de padrões energéticos no campo da nossa energia individual é formada por nossos sentimentos, pensamentos, atitudes, crenças, ações, objetivos, que configuram nossa interação com o ambiente e que constituem o que chamamos de contexto, valor e significado. Emoções negativas, crenças depreciativas e padrões limitadores afetam a dinâmica do nosso campo energético, restringindo ou distorcendo a expressão do nosso poder.

Quando colocamos a mente consciente como o atrator no cerne da totalidade que somos, atribuindo a ela todos os nossos processos cognitivos, desconsideramos o corpo como parte ativa e fundamental de tudo que fazemos, deixando de utilizar uma infinidade de recursos que descartamos sem nos darmos conta, porque não encaixam no nosso referencial mental. Não reconhecemos que, “dentro de nós, na pessoa que carrega a consciência por aí, acontecem processos cognitivos e mentais, que são bem mais ricos do que o consciente pode saber ou descrever. Nossos corpos retêm uma vinculação com um mundo circundante que passa diretamente através de nós, entra por nossas bocas e sai do outro lado, mas é oculta de nosso consciente”, escreve Tor Norretranders em The User Illusion.

Não apenas o ser humano, mas cada organismo vivo é uma interação corporal com uma situação complexa e com todo o universo. Toda experiência acontece em um contexto inseparável do ser que experiencia. A experiência e a situação vivida não são duas coisas que se somam, mas constituem uma unidade em que uma está implicada na outra desde o princípio.

Enquanto seres humanos, vivemos em um mundo permeado pela linguagem, esta também implicada no nosso viver biológico. Para Humberto Maturana, a existência humana acontece no espaço relacional do conversar, quando nossas emoções se entrelaçam com o que ele denomina de linguajear, um fluxo que abarca não apenas palavras, mas emoções e comportamentos, num processo contínuo e mútuo de interações, que decorrem do modo como nos relacionamos uns com os outros e com o mundo que configuramos enquanto vivemos. Esta linguagem, que está sempre implícita na experiência humana e profundamente enraizada no corpo, surge na interação sensível do corpo com a situação na qual este se encontra, criando sua história a partir desta interação.

Quando falamos, não estamos apenas relatando algo que vivemos ou que existe separado de nós. O próprio ato de falar é uma experiência que nos leva um passo além da nossa vivência, acrescentando uma nova dimensão àquilo que vivemos. Esta é a razão pela qual as pessoas têm necessidade de relatar suas experiências. Ao fazê-lo, revivemos nossa experiência de uma outra perspectiva, ao mesmo tempo em que a levamos um passo além, tornando-a mais rica e mais profunda. Pelo fato de sermos inerentemente criaturas interacionais, escreve Gendlin em Thinking at the Edge [Pensando no Limiar], “nossa complexidade intrínseca se abre mais profundamente quando estamos falando com outra pessoa que realmente quer nos ouvir. É assim que construímos nossa história individual e, por decorrência, nossa história coletiva.

Em um processo que cria novas realidades, o viver interacional do corpo com seu ambiente é elaborado e refinado pela linguagem, ao mesmo tempo em que delineia os próximos passos, criando e recriando o mundo à medida que vivemos. Nossa consciência das situações nos possibilita levar nosso viver adiante, abrindo novas vias ao interagirmos como um organismo intrinsecamente relacionado com seu ambiente. Os conteúdos que experienciamos não existem a priori, mas são criados no próprio processo de viver e experienciar e transformados incessantemente, à medida que levamos o viver adiante.

Como uma totalidade, o corpo capta nossa situação vivencial em toda sua inteireza. E o atrator deste campo total é o coração. Através do nosso coração, acessamos não apenas nosso contexto, mas igualmente os valores e significados que constituem nosso mundo interior, “este mundo limitado e formatado pelo sistema cognitivo pessoal e formado a partir da experiência individual daquilo que nossa espécie e cultura seletivamente configuraram e passaram adiante”, escreve Gendlin.

O coração é a conexão entre nossa experiência pessoal e a cultura, bem como causa e efeito de todas as conexões. Quando permitimos que os processos mentais dominam nosso viver, o mundo interno do coração e do espírito ficam comprometidos, ignorados ou perdidos. Passamos a viver em um mundo dominado por idéias, crenças e leis que desconsideram nossas experiências emocionais e limitam as nossas possibilidades criativas, que surgem da experiência direta e vivencial com nosso ambiente.

Para restabelecermos a conexão interrompida com a verdadeira alegria dos relacionamentos, o propósito real da vida e a força impulsionadora por trás da criação e do universo, precisamos deslocar nosso foco da mente para o corpo. O corpo estabelece interações complexas com seu ambiente, respirando, alimentando-se, caminhando. Autociente, ela/ele sente toda a situação e se move para a próxima ação. É com o corpo que sentimos a nós mesmos vivendo em nosso contexto total. Mais do que isto, afirma Gendlin, por ter o potencial para sentir no limite do pensar humano, o corpo pode pensar além de qualquer coisa formulada antes. “Aquilo que um organismo humano registra nunca é apenas nada, nunca um limbo indeterminado. O corpo está sempre em interação” e desta interação emerge a próxima ação, o próximo passo.

Para que o coração possa assumir sua função como atrator, em torno do qual gira este campo total que é o corpo, precisamos equilibrar os hemisférios direito e esquerdo do cérebro, nossas qualidades femininas e masculinas, a fim de que a energia do coração possa ocupar o centro do nosso viver. Precisamos integrar o pensar com o sentir e transformar o medo em amor.

Para mudarmos o foco de nossa vida da mente para o coração, precisamos estar dispostos a empreender o esforço necessário para fortalecer o fluxo amoroso que se origina no coração e que ocorre sempre no momento presente, revendo nossas escolhas, crenças e objetivos, substituindo toda a negatividade por sentimentos positivos de apreciação. Isto é mais simples do que parece, pois, como afirma David R. Hawkins em Power vs. Force, “mesmo alguns pensamentos amorosos durante o dia contrabalançam todos os pensamentos negativos”. Quando nos dispomos a praticar diariamente uma atitude positiva em relação ao mundo à nossa volta, transformamos nossa realidade.

Claro que não basta nos desenvolvermos enquanto indivíduos, uma vez que nossos contextos são parte determinante do que somos. Precisamos mudar nossos padrões de interação, aplicá-los e sustentá-los nas nossas ações cotidianas, para que influenciem e transformem nosso ambiente.

À medida que trazemos a energia do coração para o centro de nossas relações familiares, sociais, profissionais, criaremos uma cultura humana em que o amor predomina na rede sutil de padrões energéticos que nos conectam a todo o universo. E o coração terá assumido seu lugar como o grande atrator no universo.

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