O ensinamento de uma árvore

26/06/2013

Quero partilhar com vocês a lição que aprendi com uma árvore, enquanto apreciava o panorama visto da praça do Por do Sol em São Paulo, uma praça num local elevado, de onde se pode ver ao longe o sol se por. Bem na minha frente havia uma bela árvore de tronco ereto e copa arredondada e brilhante, com quem já havia travado conhecimento em outra ocasião. Ao fundo e um pouco distante, do outro lado da rua que fica logo abaixo da praça, há uma extensão de copas de árvores formando um tapete verde contínuo. Um belo panorama para uma cidade como São Paulo.

Para quem nunca pensou nisto, as árvores são seres sociais e gostam de estar reunidas em grupos na floresta, fazendo companhia umas para as outras. Nos espaços ocupados pelos humanos muitas vezes elas acabam solitárias. Sou uma apreciadora de árvores e já encontrei muitas árvores majestosas se erguendo solitárias em um vasto campo aberto. Mas ‘conversando’ com esta árvore diante de mim, posicionada um pouco distante e geograficamente acima das demais, compreendi algo muito importante para mim e que partilho com vocês.

Esta árvore específica é o que chamamos de um ser independente. Ela ocupa e sustenta seu espaço de forma harmoniosa, sem que tenha contato físico com qualquer outra, mas está, ao mesmo tempo, conectada com todas as demais que se encontram um pouco mais distantes. Ela não se sente sozinha, está apenas em seu campo individual, enquanto as árvores do outro lado da rua formam um agrupamento, com suas copas se tocando. E por estar em seu espaço individual, a forma do tronco desta árvore e sua copa apresentam uma configuração harmoniosa, prevista em sua essência. Ela é uma árvore perfeita.

Isto não quer dizer que as demais árvores não sejam perfeitas em si, mas é comum vermos na cidade árvores em espaços impróprios para seu desenvolvimento pleno, que precisam se torcer e contorcer para encontrar algum equilíbrio e espaço para se expandirem de acordo com sua natureza. Assim também o fazem os seres humanos, que muitas vezes não encontram o ambiente adequado para se desenvolverem de forma plena e harmoniosa.

Também nós seres humanos somos seres sociais e gostamos de estar uns na companhia dos outros. Mas os grandes aglomerados urbanos dos tempos atuais fazem com que as pessoas tenham que se torcer e contorcer para encontrar um espaço, tendo muitas vezes dificuldade para se equilibrarem e expandirem. Aprendemos muito cedo na vida que para ocuparmos nosso espaço precisamos disputá-lo com outros, o que por sua vez significa nos adaptarmos, tornando-nos algo diferente do que somos naturalmente, distanciando-nos da nossa perfeição essencial. Em termos humanos, tornamo-nos codependentes, isto é, abrimos mão de quem somos verdadeiramente para sobreviver e fazer parte.

E quando evoluímos em consciência e buscamos nossa independência, parece que tudo que nos resta é ficarmos sozinhos, separados dos demais. O que a árvore me ensinou é que não há necessidade disto ser assim. As alternativas não são apenas sermos codependentes ou solitários. Podemos nos tornar independentes, expressar nossa natureza individual, única, e ainda assim permanecer em contato com todos os demais, mesmo que fisicamente pareçamos distantes. Quando aprendemos a fazer isto, tornamo-nos pessoas independentes que formam uma rede com outras pessoas independentes. Deste modo, em uma coletividade de indivíduos, podemos criar um mundo interdependente, em que cada ser, humano ou não, tenha espaço para expressar sua verdadeira natureza e ainda assim fazer parte.

O caminho para isto pode não ser nem rápido nem fácil, mas, ao sustentarmos a imagem de uma floresta em que todas as árvores possam expressar sua mais bela e perfeita forma, estaremos participando na criação deste mundo novo. Estaremos plantando uma floresta humana viçosa e pacífica, em que todas as formas e tipos e cores e idades de árvores-humanos possam conviver em harmonia.

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