O próximo passo: da codependência à interdependência

27/04/2013

A tão anunciada grande mudança do mundo está a pleno vapor. Mas sua visibilidade requer uma atenção mais sutil ao que acontece à nossa volta, pois não são mudanças óbvias e evidentes, mas sutis transformações nos padrões e valores que começam a ser manifestados em todo o planeta, nas suas mais diferentes esferas. Não é algo totalmente novo. O novo consiste no fato de sua expressão crescer e se manifestar com mais frequência, com mais força e, principalmente, mais persistência. Mas até isto precisa de uma visão mais focada para ser notado.

A grande mudança é um passo evolutivo da humanidade em direção a uma consciência mais interdependente, cuja expressão ocorre em nossas relações com todos os seres que partilham este planeta conosco. Portanto, o foco do nosso próximo passo evolutivo como seres humanos é a questão dos relacionamentos. E isto não inclui apenas nossos relacionamentos com pessoas humanas, animais, plantas e coisas materiais em geral. Inclui também e principalmente a relação entre as diferentes instâncias internas que configuram o mundo que cada um de nós é. A relação entre os diferentes EUS que compõem a nossa individualidade.

A trajetória evolutiva da humanidade se inicia em uma condição de inconsciência e segue em um processo progressivo, contínuo e infinito, cujo destino é a plena consciência. No presente estágio da humanidade, prevalece o modo codependente de funcionamento em todas as esferas relacionais, como ficou demonstrado na já não tão recente crise financeira, que ainda está convulsionando a realidade global.

O modo codependente de funcionar tem no seu cerne a questão primordial da sobrevivência. Afinal, sobreviver é fundamental para continuarmos nossa trajetória. E mesmo que individualmente ainda não tenhamos todos aprendidos plenamente como sobreviver, enquanto humanidade já não corremos o risco de extinção.

A crença em que se baseia o impulso para a sobrevivência é de que não há suficiente para todos. Diante da realidade que nós mesmos criamos isto parece se confirmar, justificando a ânsia individual de acumular bens e experiências. E é justamente esta atitude de acúmulo pessoal que acaba levando a uma situação em que alguns têm muito e outros têm pouco ou nada, e não estou me referindo apenas a bens materiais, mas principalmente ao desenvolvimento psicossocial.

Se olharmos de uma perspectiva mais ampla, podemos perceber que o universo é abundante, a falta é apenas uma questão de distribuição. A energia universal é abundante, inesgotável e disponível de graça, mas ela não é gratuita, ela requer trabalho. Não me refiro ao trabalho que consiste na execução de tarefas no mundo externo, apesar destas também serem necessárias. Refiro-me ao trabalho interior, ao trabalho com nossas crenças, nossos sentimentos, nossas atitudes; um trabalho de autodesenvolvimento, um trabalho em consciência.

Precisamos transformar a culpa, que apenas nos induz a corresponder ao que outros querem ou esperam de nós, em lugar de nós mesmos dizermos ao mundo quem somos e a que viemos, qual é nossa contribuição pessoal e individual para a realidade comunitária. No lugar da culpa precisamos manifestar responsabilidade pelo que somos e pelo que fazemos, não esperando que alguém outro mude, para que eu obtenha aquilo que desejo ou necessito. Preciso correr o risco da desaprovação, fazendo minhas próprias escolhas e arcando com suas consequências. Essencialmente, preciso não abandonar a mim mesmo, tornando-me algo que não sou verdadeiramente, apenas para obter aprovação ou reconhecimento de outrem. Preciso me tornar independente nas esferas física, emocional, mental e espiritual. (Leia também O Impulso para a Independência)

Tornar-se independente certamente não é uma tarefa fácil, pois não apenas temos que nos afirmar diante das nossas próprias restrições e resistências, crenças, hábitos e atitudes automáticas, mas também diante de uma sociedade que ainda funciona basicamente de forma codependente. E se você não souber como identificar isto, vou lhe dar uma dica: sempre que alguém lhe disser o que deve fazer, ou você perguntar para alguém o que você deve fazer, é o outro quem está determinando quem você é e como você vive a sua vida. A isto se denomina codependência. E ela sempre é mútua. Não podemos ser unilateralmente codependentes.

Mas é importante estar ciente de que codependência não é nem pecado nem doença, é simplesmente um estágio no desenvolvimento da consciência, estágio em que se encontra a maioria da humanidade e que define a nossa realidade como ela é atualmente. A insatisfação com a realidade é uma condição prevalente. A maioria das pessoas está insatisfeita com sua vida, pelos motivos mais diversos. Todos têm razão. Mas para modificar a situação em que nos encontramos, precisamos transformar a nós mesmos. A sociedade é uma instância abstrata, ela apenas muda se seus componentes – nós – mudarem.

Ser independente não significa ser egoísta, pois isto seria eu definir o mundo a partir de mim, ego. Ser independente significa que eu sustento a minha verdade e reconheço a verdade de qualquer outro, mesmo que eu discorde. Pode ser que inicialmente tenhamos que parecer ‘egoístas’ aos olhos dos outros, porque não abrimos mão de nossa verdade em favor da verdade do outro. Mas quando alguém quer que eu abra mão do que é importante para mim, a fim de atender a algo que é importante para o outro, o que é que este outro está sendo? Está sendo egoísta! Tenha isto sempre em mente.

Quando pessoas independentes se relacionam, elas o fazem de uma forma mais interdependente, ou seja, respeitam mutuamente a verdade um do outro. Ninguém se torna mestre nesta forma de se relacionar da noite para o dia. Requer uma prática diária e contínua e, como acontece com toda prática, é melhor começar com pequenas ações, porque quando começamos com as situações mais complexas, estamos criando fracasso para nós. E só o que queremos de fato é crescer e nos tornar mais conscientes de quem somos verdadeiramente. Quando obtemos sucesso com uma coisa pequena, isto nos estimula a continuar praticando. E com prática, nos tornamos habilidosos de um modo natural.

Ao expressarmos cada vez mais quem somos verdadeiramente, respeitando quem o outro é verdadeiramente, estamos manifestando nosso ser mais verdadeiro, estamos expressando nossa alma. Para desenvolver um sentido profundo e verdadeiro de individualidade, é necessário que nossa alma trabalhe em conjunto com a alma do mundo, pois ser independente não significa ser isolado, significa apenas ser uma unidade – um indivíduo - em um espaço coletivo. Porque não somos apenas nós, seres humanos, que temos alma, todos os demais seres e o próprio mundo têm alma. Assim, ao expressarmos quem somos verdadeiramente, não estamos apenas cuidando de nós, mas também estamos participando da regeneração da alma do mundo.

Em seu livro No Mundo com Alma, Roberto Sardello nos convida a manifestar a própria alma para contribuir com o resgate da alma do mundo e assim recuperar o significado mais profundo da vida no mundo e com o mundo. Tornar-se independente não significa se distanciar dos demais, isolar-se, mas sustentar a própria individualidade enquanto nos relacionamos com uma comunidade mais abrangente, de preferência que abarque a totalidade do mundo. “Estar em comunidade”, escreve Sardello, “implica fazer coisas a partir de total individualidade, e isso significa ter a capacidade de ver os outros como se pertencessem ao mistério de minha própria alma e como se pertencessem ao mistério da alma do mundo.”

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