A vítima como oportunidade

Em seu livro Contratos Sagrados, Caroline Myss fala dos padrões psicológicos que expressamos em nossa vida como personagens retirados do texto comum da humanidade. Apesar de cada ser humano atribuir características pessoais a estes personagens, eles podem ser facilmente reconhecidos por sua dinâmica própria, comum a todas as suas interpretações individuais. Todos estes padrões têm a função de despertarem nosso potencial divino, libertarem-nos das limitações dos pensamentos e sentimentos e iluminarem os cantos escuros e pouco conhecidos da nossa alma. E o fazem, amplificando nossos pontos fortes e nosso brilho. Portanto, aconselha ela, “diante de um arquétipo percebido como difícil ou mesmo malévolo, nosso dever é reconhecer sua presença, sobrepujar a fraqueza que ele está indicando e trabalhar para fazer nosso seu potencial divino.”

O padrão da vítima está entre os padrões que estão continuamente ativos na vida de qualquer pessoa. Todas e todos nós já passamos por situações em que nos sentimos vitimadas. E vamos deixar bem claro aqui que, quando alguém se sente vitimado, há sempre uma razão para isto. Mesmo que a reação pareça desproporcional, por exemplo, quando uma pessoa reage intensamente a uma simples palavra dita por alguém. O motivo poder ser ou não aparente, pois nem sempre temos acesso ao contexto inconsciente em que a palavra caiu. É importante validar a experiência e buscar sua origem, a fim de transformá-la em potencial criativo.

A vítima faz parte de uma triangulação comportamental, que engloba também o papel do opressor e do salvador. Quando alguém está no papel da vítima, sempre haverá alguém que desempenhará o papel do opressor e alguém que desempenará o papel do salvador. Enquanto o roteiro se desenrola, as pessoas se alternam nestes papéis, cada uma delas podendo ocupar qualquer posição, a qualquer momento. Tendemos a expressar este roteiro em nossa vida, escolhendo pessoas para desempenharem os papéis correspondentes. Mas também vivemos este roteiro interiormente, quando os papéis são desempenhados por aspectos diferentes de nós mesmos.

Dá-se a este roteiro a designação de relação de codependência e certamente todas e todos conhecemos relações que apresentam este padrão, quando não fomos ou somos parte de um roteiro destes. A dinâmica subjacente a esta triangulação comportamental revela que as pessoas que fazem parte do roteiro não conseguem sustentar seu próprio campo energético e necessitam estar acopladas às demais, para se manterem na vida, daí o termo ‘codependência’. A reação de cada pessoa a esta sensação subjacente de impotência (Eu não sei o que fazer... Eu não vou conseguir sozinha... Eu não posso viver sem você!) vai definir qual dos papéis uma pessoa escolhe para desempenhar na vida. Há aquelas que serão eternamente vítimas, sua vulnerabilidade as tornando incapazes de assumirem responsabilidade por si mesmas e usarem seu próprio poder. Outras já tentarão negar sua vulnerabilidade, mobilizando seu poder para ajudar outros, na ilusão de que são fortes. E outras ainda simplesmente ignoram seu poder e o desconsideram, atuando mais frequentemente como opressores.

Caroline Myss inclui a vítima entre os arquétipos de sobrevivência. Ninguém se torna vítima porque quer ou porque é bom, mas porque permaneceu preso nesta dinâmica, numa tentativa desesperada para sobreviver. A percepção subjacente de vulnerabilidade e de impotência para lidar com a vida e seus desafios motiva todas as suas ações. As vítimas são pessoas que necessitam de ajuda para acessarem seu próprio poder e aprenderem a lidar com os problemas da vida. Precisam que alguém acredite nelas, quando elas próprias não acreditam. Precisam ser apoiadas amorosamente para enfrentarem suas dificuldades, em vez de tê-las solucionadas por elas.

O arquétipo da vítima é o guardião da auto-estima. E como já escrevi em outro texto, não nascemos com auto-estima, mas a desenvolvemos enquanto vivemos. E por ser a guardiã da auto-estima, na triangulação da codependência, a vítima é nossa porta para o crescimento, pois é apenas quando abraçamos a vítima em nós que podemos modificar a dinâmica subjacente e crescer para além dela.

Acolher a vítima significa descobrir o que nos mantém neste lugar, nos perguntar se vale a pena ou não abrir mão do poder pessoal para evitar a responsabilidade de ser independente. Significa encarar as nossas dificuldades e encontrar soluções outras, que nos possibilitem acessar e usar nosso poder, a fim de que possamos nos elevar acima do sofrimento. Dar a nós mesmos o que necessitamos e aprender a viver vidas dirigidas por nós próprios requer fé. Precisamos de bastante fé para tocar nossas vidas, e precisamos fazer pelo menos alguma coisa pequenina a cada dia, para começar a andar para a frente, escreve Melody Beatty em Codependência nunca mais.

Não são as situações em si, mas nossa reação a elas que nos tornam vítimas. E nossas reações se originam da percepção que temos do que está acontecendo e de como nos relacionamos com nosso poder pessoal. O modo como olhamos para uma situação e para as nossas possibilidades de lidar com ela é que vão definir se nos tornamos mais fortes ou fracos, se vamos aprender algo e seguir adiante ou se permanecemos como vítima.

Precisamos desenvolver um novo olhar sobre nós mesmas e sobre o mundo, desenvolvendo um novo modo de nos relacionar com tudo. Da próxima vez que você se sentir vitimada, procure dentro de você a razão pela qual você está abrindo mão de seu poder e deixando outra pessoa controlar como você se sente ou o que você faz. Qualquer que seja a razão, acolha-a e procure refletir se vale a pena; entre mais profundamente ainda e veja qual é a experiência que fez você desenvolver esta atitude. Olhe bem para o que surgir, tendo em mente que, na ocasião em que você tomou este rumo, foi a melhor resposta que você tinha disponível. Assimile e honre os ensinamentos que este caminho lhe proporcionou, reavalie a situação de sua perspectiva atual e tome uma nova atitude, baseado em suas possibilidades de hoje.

Faça isto tantas vezes quantas puder e aproveite as menores oportunidades para crescer a partir do lugar em que você estagnou. A vida nos apresenta inúmeras oportunidades diariamente. Comece pelas pequenas e acolha-se nos momentos em que você não puder modificar sua atitude. As pequenas mudanças irão se somar, até você ser capaz de afirmar sua autonomia e seu poder, ocupando o seu lugar no mundo.

Potencializar o ser