Ritual - A Experiência do Sagrado

Reunir mulheres para viver e compartilhar nossas experiências pode ser uma viagem de descoberta a um país afundado. Partilhar este saber é construir uma comunidade de apoio mútuo.1

Decorrente do ressurgimento da consciência feminina, da consciência ecológica e do despertar para a espiritualidade, o anseio pelo sagrado levou muitas pessoas a buscarem espaços alternativos às formas patriarcais tradicionais. Esta foi, no meu entender, a razão pelo absoluto sucesso dos rituais mensais, realizados no Espaço Caldeirão de 1998 a 2004.

A experiência como um todo comprovou as palavras de Régis de Morais, quando ele afirma que “Na consciência mítica que sobrevive em nós está a fonte das energias do sagrado, que aparentemente renasce das cinzas da secularização como a Fênix. [...] Uma nova intuição mágica reinventa a realidade para grande quantidade de seres humanos que, ao contrário de passarem a enxergar outro mundo, enxergam o mesmo mundo de uma forma diferente - a partir de um ângulo novo.”2

O projeto dos rituais foi a solução encontrada para atender ao desejo expresso por algumas alunas de darem continuidade ao estudo da tradição da deusa. Algo parecido com um estágio prático. Para que o efeito do nosso trabalho pudesse ser verificado, pensamos em convidar algumas mulheres para participar dos rituais e partilhar conosco suas experiências. Elas prontamente atenderam ao nosso convite. No primeiro encontro havia 10 mulheres, no segundo 15 e no terceiro 30!

Ao longo destes anos, em que realizamos um ritual toda última sexta-feira do mês, em nenhuma ocasião havia menos de 15 mulheres presentes, mesmo quando a última sexta-feira do mês iniciava um feriado prolongado. Fomos reconhecendo que a maior ou menor participação estava mais relacionada com o tema proposto do que com as circunstâncias externas muitas vezes invocadas para justificar a não realização de algum trabalho.

Nosso processo de definição dos temas era intuitivo. Para mobilizar a nossa intuição, utilizávamos uma série de recursos, tais como amuletos, cartas, runas, meditação, música. Considerávamos a fase da lua e a estação do ano. Às vezes emergia o nome de uma deusa e aí verificávamos quais eram suas características e qualidades que gostaríamos de trabalhar, outras vezes era uma qualidade ou um valor que surgia e então procurávamos uma deusa que representasse essa qualidade ou valor.

Com isto, ampliávamos nosso conhecimento do universo da deusa, percorrendo as mais variadas tradições mitológicas e nos aprofundando no estudo de cada uma. As sutis diferenças entre as deusas de diferentes tradições foram surgindo, refinando nosso conhecimento.

A forma mais antiga da humanidade manifestar o sagrado é o ritual. Quando realizamos um ritual, recortamos um tempo/espaço da nossa vida cotidiana e penetramos no espaço sagrado, alinhando nossa energia com a energia divina. Em assim fazendo, entramos em sintonia com a dimensão cósmica, permitindo que a vida aconteça em harmonia com o universo.

A participação em rituais coletivos não propicia apenas uma transformação pessoal, mas a experiência grupal cria um senso de comunidade que causa impacto na vida cotidiana de cada participante, atuando no sentido de transformar suas relações sociais. 

Não há uma forma rígida prescrita para os rituais na tradição feminina. Há apenas algumas regras básicas, como criar um espaço sagrado, mobilizar energia para o propósito, a vivência propriamente dita e o fechamento no final, quando o círculo é novamente aberto.

Desde os mais simples até os mais complexos, os rituais são expressões coletivas de realidades coletivas. A experiência coletiva atualiza e vivifica os valores prevalentes em um dado grupo, além de transmitir e ensinar estes valores aos integrantes mais novos do grupo. São, portanto, um elemento fundamental para criar e manter a harmonia no interior de comunidades duradouras, temporárias ou ocasionais.

Todo material elaborado neste projeto está disponível em pdf – Acesse ‘Entrando no Círculo Sagrado’. Para recebê-lo, cadastre seu e-mail.  

 

1) Rubra Força, Fluxos do poder feminino, Monika von Koss, Escrituras, SP, 2004, pg.156 

2) A consciência Mítica: fonte de resistência do sagrado, Regis de Morais em As razões do mito, org. Regis de Morais, Papirus, Campinas, SP, 1988, pg. 75

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Potencializar o ser

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